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UMA TRAGÉDIA BRUTAL

Segunda-feira, 07.04.14

Atónitos, desesperados, aflitos e tresloucados, homens e mulheres velhos e crianças assistiam àquela gigantesca maré de fogo que, abrupta e intensiva, se escoava da montanha, em ondas avassaladoras, pelas encostas sobranceiras à freguesia, em direcção ao mar. Por onde passava, aquela torrente de lava incandescente deixava um rastro de destruição, queimando, sufocando, abrasando tudo, ao mesmo tempo que, do cabeço de Cima e do Cabeço de Baixo, continuavam a cair, como que vindos do Céu, revoadas de trovões e estrondos sucessivos e aterradores. Parecia o dia do juízo! Muitos acreditavam que o mundo havia de acabar mesmo ali, naquele dia, naquela hora, naquele momento, debaixo daquele fogo abrasador e terrível, emerso das entranhas da terra.

Perplexos, apavorados e entontecidos com o ribombar daqueles trovões secos e aterrorizados com aquela imparável torrente de lava, homens, mulheres, velhos e crianças, de joelhos, rastejando pelo chão, ao relento da madrugada, imploravam a clemência, a compaixão, a misericórdia e a bondade divinas, ao mesmo tempo que pediam perdão a Deus pelos seus pecados, gritando em altos berros, anunciando a todos, os delitos que haviam cometido, misturando as suas vozes com o aterrador ribombar dos ruídos que emanavam da montanha, cada vez com mais veemência e com os roufenhos rugidos do mar, até então adormecido, mas que aos poucos se fora revoltando e embravecendo, numa espécie de tentativa fingida e frustrada de se opor aquela espécie de ira e de ódio que a montanha vomitava e expelia por ali a baixo. Era um fogo terrível, incandescente, vermelho, cada vez mais assustador que se escoava pelas encostas, como se fosse um rio de lava, deslizando na direcção das casas, dos campos, dos currais das vinhas, das hortas e do mar. Um verdadeiro inferno! Uma tragédia brutal, uma calamidade nunca vista até então.

A manhã, no entanto, embora sombria, começava a clarear por entre um alvoroço louco, incrível e desmesurável. O fogo descia cada vez com mais veemência e intensidade na direcção do mar e começava a atingir alguns casebres, os mais pobres, os mais pequenos, construídos no sopé da montanha, do lado que dava para as Bandeiras. O povo aos gritos, aos sobressaltos, aos berros corria de um lado para o outro, sem fazer coisa nenhuma, tentando procurar os familiares desaparecidos.

De perto e de longe chegavam murmúrios e lamentações. A imparável torrente de lava incandescente e desmedida já destruíra muitos campos, desfizera muitas vinhas, atingira muitos currais, matando muitas ovelhas e cabras e já chegara às primeiras casas. Havia muitas zonas ao redor dos subúrbios da freguesia, do lado das Bandeiras, já totalmente cobertas de lava. No ar começava a sentir-se um estranho cheiro a enxofre e a carne queimada.

Porém, no largo fronteiro à pequenina ermida de Santa Luzia, a torrente de lava ainda não chegara, parecia mesmo que dali se afastava, escoando-se pelos terrenos mais distantes, situados entre Santa Luzia e as Bandeiras. Junto à pequena igrejinha de Santa Luzia já se aglomerara muita gente. Era lugar, aparentemente, mais seguro e um sítio de súplicas a Deus e preces à padroeira. Ali, o povo de joelhos, juntamente com o vigário e com Frei José das Cinco Chagas, ermitão de grandes virtudes, que por ali se havia refugiado desde há muitos anos, vivendo sozinho num humilde casebre no sopé da montanha, rezava, pedia, implorava e suplicava a protecção divina. Deus, por intercessão da Virgem e Mártir Santa Luzia, a sua querida padroeira, em hora de tão grande angústia e em momentos de tão excessiva aflição, havia de os aliviar de tamanha e brutal tragédia. Alguns entravam na ermida e, percorrendo-a de joelhos, imploravam, por intercessão da sua padroeira, a misericórdia e o perdão divinos, enquanto outros visitavam as doze estações da via-sacra. Por sua vez, os que ficavam fora do templo faziam Rogações, dando voltas à pequena igreja, cantando a Ladainha de todos os Santos. O vigário, Francisco Dias, paramentado com as vestes roxas celebrava missa votiva “In die cataclismus”, invocando a protecção da Virgem e Mártir Santa Luzia. Mas muito povo ou porque não coubesse na pequena igreja ou porque tivesse receio de ali entrar, permanecia no exterior, rezando preces emotivamente fervorosas dirigidas à misericórdia de Deus e manifestando o arrependimento dos seus pecados e o firme propósito de emenda, manifestados com o coração contrito.

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publicado por picodavigia2 às 17:47





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