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UMA VISITA

Sábado, 15.03.14

O Carvalho de Novembro, em vez das cartas habituais, trouxe-me uma agradável surpresa. Uma visita! Precisamente no dia em que o Carvalho atracara à doca, a meio da tarde, durante o recreio grande, avisaram-me de que me dirigisse à sala de visitas. Tinha lá alguém vindo das Flores que queria ver-me e falar comigo. Apreensivo e quase incrédulo, desloquei-me para o sítio indicado, praticamente propriedade dos alunos de São Miguel e onde eu nunca havia entrado. A surpresa ainda se tornou maior quando dei de caras, sentado numa cadeira, à minha espera, com meu tio Cristiano.

Abraçámo-nos demoradamente, fazendo de conta que aquele abraço também era de meu pai, de meus irmãos, da minha avó, de todos os meus outros tios e primos que ainda viviam nas Flores. Depois explicou-me a razão de ser da sua inesperada viagem: no Carvalho anterior recebera a “carta de chamada” e por isso não me puderam avisar da sua vinda. Já tinha a passagem de avião e partiria para a América no dia seguinte. A mulher e os filhos haviam de seguir mais tarde.

Meu tio Cristiano, para além de agricultor, criador de gado e baleeiro ainda era alfaiate e um bom jogador de fuetebol. Fora ele que me fizera o fato e os guarda-pós. Desde há muito e sobretudo na altura das provas, que eu ia muito para casa dele, brincando com meus primos. Durante as nossas brincadeiras e folguedos, meu tio apercebera-se de que eu tinha a vista muito fraca e via mal. Como nas Flores não havia oftalmologista, ordenou-me que logo que chegasse a São Miguel, pedisse ao Reitor do Seminário que me levasse a uma consulta. Na opinião dele, sobretudo agora que iria estudar, devia usar óculos. Por isso a primeira coisa que me perguntou foi pelos óculos. Disse-lhe que já tinha falado com o Senhor Reitor mas que ele não ligara importância nenhuma e que tinha vergonha de voltar a falar. Meu tio, que era levado da breca, enfureceu-se e, perguntando-me onde era o quarto do reitor, irrompeu pelo Seminário dentro, até à reitoria. Eu atrás cheio de medo e de vergonha e ele à frente como se a casa fosse dele! O Senhor Reitor, no entanto, recebeu-nos de bons modos, parecendo até não se ter importado de meu tio lhe entrar tão abruptamente pelos aposentos. Meu tio explicou-lhe pormenorizadamente ao que vinha e o Senhor Reitor ouviu-o atentamente. No fim disse-lhe que muitos seminaristas queriam usar óculos apenas por vaidade, para parecerem mais bonitos e que talvez fosse isso que eu queria e que por certo não precisaria de óculos. Meu tio contrariou-o, dizendo-lhe que não era o meu caso, que sabia que eu tinha a vista muito fraca e que até ele próprio me levava ao médico se o Senhor Reitor autorizasse. Mas o Senhor Reitor não autorizou, nem nunca mais se lembrou de me levar ao oftalmologista. E assim andei aqueles dois anos cegueta, à espera de chegar a Angra para aí, sim, marcar uma consulta num oftalmologista, comprar uns óculos com lentes de nove e onze dioptrias e até, pelos vistos, vendo-me ao espelho, parecer a mim próprio que ficara mais feio e, além disso, sujeitando-me a que, a partir de então, me chamassem “caixa de óculos”.

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publicado por picodavigia2 às 18:07





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