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VACAS DE FAVA E PORQUINHOS DE BATATA-DOCE

Sexta-feira, 19.10.18

Não será prolixo, nem muito menos cansativo repetir-se que na longínqua década de cinquenta, ali na Fajã Grande, ora protegidos pela alta Rocha dos ventos e dos temporais, ora a levar com as tempestades e maresias trazidas pelos ventos do Norte e do Oeste, num e noutro caso, consequentemente, impedidos de trabalhar e com tempo para a brincadeira, éramos nós próprios que, geralmente, construíamos os nossos brinquedos, aproveitando tudo o que tínhamos à mão e que para tal fosse adequado. E verdade é que geralmente o fazíamos, com muita imaginação, perícia e performance. Além disso, idealizava-se a construção dos nossos brinquedos no que fazia parte do nosso quotidiano e no dos nossos progenitores.

Ora as vacas e os porcos eram animais que, para além de presentes no nosso dia-a-dia, constituíam uma espécie de epicentro de toda a actividade laboral, diária, da maioria dos habitantes da Fajã Grande. Por isso e naturalmente era relacionada com essa actividade que arquitectávamos grande parte das nossas brincadeiras e era também ela que delineava os limites da nossa imaginação, configurava a nossa criatividade e como que se personificava na maioria dos nossos brinquedos. Entre estes tinham lugar de destaque as vacas feitas com as vagens das favas e os porquinhos feitos com batatas-doces.

As vacas de fava eram construídas geralmente no tempo em que o gado andava no “oitono”, ou seja, durante os meses da Primavera. À tardinha, enquanto os nossos progenitores e os outros homens, agrupados em função das proximidades das terras onde tinham o gado amarrado à estaca, aguardavam, em amena cavaqueira, a hora da ordenha e enquanto os animais ruminavam a última “cordada”, ou porque as houvesse ali por perto ou porque as fôssemos procurar mais além, apanhávamos algumas vagens de fava, escolhendo as mais compridas e grossas e as que julgávamos de maior beleza estética. Depois arranjávamos quatro “fochos”, cortávamo-los todos do mesmo tamanho e “falquejávamo-los” numa das extremidades. Eram essas extremidades que depois espetávamos no bordo mais côncavo da fava ou seja do lado em que o pé da mesma se curvava, de maneira a simular o focinho do animal, enquanto os pauzinhos espetados representavam as mãos e os pés. Depois descascávamos uma outra fava, escolhíamos um grão que prendíamos entre as pernas da vaca recém-criada, a fazer de “mojo”, e cujo tamanho variava consoante queríamos uma vaca acabadinha de parir ou uma gueixa alfeira. Aos bois era-lhes espetado um pequeno “focho” na barriga a imitar o falo. Finalmente dois “fochos” no lado da fava que representava a cabeça e estava um animal perfeito, com o qual brincávamos durante alguns dias apenas, pois as favas tinham um prazo de validade bastante limitado.

Por sua vez os porcos com que também gostávamos de brincar, eram feitos de batata-doce, a qual, na altura, abundava na Fajã. Da mesma forma escolhíamos criteriosamente a bata mais redondinha, rechonchuda e que considerávamos mais parecida com o corpo de um suíno. Quatro “fochos”, desta feita mais pequenos e mais grossos do que os das vacas de fava, transformavam-se nos pés e nas mãos do suíno enquanto outros dois mais pequeninos, espetados do lado contrário simulavam-lhe as orelhas. E aí estava um porco perfeito. Depois era criá-lo, matá-lo e até, por vezes comê-lo, porque na realidade muitas vezes, naqueles tempos, até comíamos batata-doce crua.

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